Primeira Pessoa
Crônicas do jornalista e escritor mineiro Roberto Lima
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Um cansaço jobiniano
Há cerca de dois anos, mais ou menos, recebi o telefonema de um amigo que, cansado das coisas por aqui, resolvera retornar ao Brasil.
Emocionado, balbuciou que tinha saudade do velho e bom samba dos morros cariocas, do futebol domingueiro no Maracanã, da cervejota gelada no quiosque da praia, e de mais um monte de outras coisas, que lhe faziam demasiada falta.
Estava farto do estresse da vida na região metropolitana de Nova York, e não suportava mais a hipervelocidade, a poluição, a falta de sutileza das pessoas.
Além do mais, alegava a ausência de uma centena de fatores que, aparentemente banais, seriam essenciais para a sua felicidade. Ao final, fez uma citação:
Tom Jobim dizia que o Brasil é uma ruim, mas é bom. E que os Estados Unidos é bom, mas é ruim.
E lá se foi. Sumiu o moço.
Ontem, para minha surpresa, um e-mail volumoso repousava em minha caixa de mensagens.
No espaço onde estipulava o assunto da correspondência, lia-se “cansaço jobiniano”.
E a mensagem era mais ou menos esta:
Estou voltando.
Cansei de beber cafezinho em copo lagoínha nas lanchonetes.
Cansei dos mosquitos voando dentro das vitrines de doces e bolos das padarias.
E cansei-me de muito mais.
Cansei-me do gás vendido em botijão.
E de policiais despreparados e truculentos pelas ruas do meu Rio de Janeiro.
Cansei-me do medo da violência urbana, que transforma cada sinal de trânsito, numa extensão tapuia da Faixa de Gaza.
Aliás, morre-se mais por aqui, do que naquelas desérticas paisagens.
Cansei-me das balas perdidas.
Balas de grosso calibre, meninos cheirados de cola, sequestradores de meia-pataca, bandidos do colarinho branco, ladrões de banco ou de galinha...
Por aqui, mata-se por um par de tênis.
Mata-se após receber o resgate.
Ou, por qualquer ninharia.
Assassina-se na saída do Maracanã, na porta da fábrica ou da igreja.
Morre-se jovem e inocente no refeitório de uma universidade, durante o recreio.
Morre-se dormindo, varado por uma bala perdida, na não-mais fortaleza do lar.
Cansei-me do medo de toda uma cidade.
Cansei-me do meu próprio medo.
Cansei-me de Galvão Bueno, o chato mais bem remunerado do mundo. É ele quem nos deveria pagar por anos de tortura mental.
A poluição sonora de Nova York é nada, comparada às bobagens deste narrador.
Cansei-me de Fausto Silva, o Faustão. Este já não tão rotundo senhor deve achar que meu ouvido é paiol.
Ou, penico.
Dizer que artistas como Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo são “monstros sagrados”, é muito mais que uma apelação.
Mais do que isto, é a confissão de um homem que vendeu sua alma ao diabo.
Cansei-me de suas duplas sertanejas.
Cansei-me de pagodeiros oxigenados.
E de "fanque".
Cansei-me de poposudas sem o menor talento, fazendo fama e fortuna à custa da ignorância popular.
Cansei-me daquelas bundas.
E não importo se me chamarem de covarde, de bundão...
Cansei-me de Ratinho, Gugu, e destes sub-produtos que nos enfiam goela abaixo, através do aparelho de televisão.
Cansei-me do Movimento Sem Terra e de seus “invasores” profissionais.
O Brasil é hoje um país de Sem-Terra, Sem-Teto e Sem-Moral. Na outra mão, é o paraíso dos Com-Teta.
Mesmo tendo roubado milhões dos pobres do Brasil, Lalau saiu da cadeia e cumpre pena em sua mansão no Morumbi.
Maluf desviou bilhões, e continua em liberdade.
Sabe-se tudo de Fernandinho Beira-Mar, mas ninguém se lembra mais de quem foi Darcy Ribeiro, ou Orlando Villas-Boas.
Isto cansa!
Cansei-me de ver que ACM (na pessoa de seu neto) e José Sarney continuam dando as cartas. E que neste país ainda se confunde imunidade, com impunidade parlamentar.
Cansei-me dos Pitboys das boates.
E de futebolistas Bad Boys.
Cansei-me de ver milhares de pessoas na fila do sub-emprego, pessoas que deveriam estar cumprindo funções qualificadas, aguardando uma vaga de gari aqui na prefeitura do Rio de Janeiro.
Companheiro, resta-me agora, desolado e com o rabo entre as pernas, inverter aquela citação do mestre Tom Jobim:
O Brasil é bom, mas é ruim. Aí é ruim, mas é bom.
A gente se vê na semana que vem.
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terça-feira, 15 de maio de 2012
O absurdo das febres
Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil. Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Ater-me-ei ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moletom e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existem.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredom de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.
sábado, 12 de maio de 2012
Porque Hoje é o Dia Delas
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Um grande menino
Hoje eu acordei com saudade de Fernando Sabino, um dos escritores mais injustiçados do Brasil.
Sabino escreveu coisas lindíssimas e possui uma das mais brilhantes carreiras das letras brasileiras, mesmo não sendo lembrado com o respeito que lhe é devido.
Dizem que começou a definhar depois de ter vendido a alma ao diabo, quando aceitou escrever Zélia, uma paixão, mistura de romance-biografia, em que abordava a trajetória de Zélia Cardoso de Melo, ex-ministra do alto escalão do governo Collor.
Tudo uma grande bobagem.
Puro preconceito.
Preconceito contra um profissional da palavra escrita que pode e deve escrever sobre o que bem entender.
E contra uma brasileira que chegara a uma das posições mais importantes naquele Brasil pós-ditadura militar e onde, até então, nenhuma outra mulher havia chegado.
Se o livro, em si, não representou para mim um marco literário, a trajetória de Fernando Sabino, não.
Para mim, Fernando Sabino foi mais que vital.
Esta manhã, fiz uma pesquisa e separei alguns momentos do escritor, que compartilho aqui com vocês:
"Liberdade é o espaço que a felicidade precisa."
“Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”
“No dia em que a mulher descobre que o homem, pelo simples fato de ser seu marido, é também seu cônjuge, coitado dele”.
“Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm”
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.
“Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei.
Para os ricos, é dura lex, sed latex. A lei é dura, mas estica”
“No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim.”
“O menino é o pai do Homem”
“Façamos da interrupção um caminho novo".
“Brigamos com os outros porque são exatamente aquilo que queríamos ser e não somos”.
“Em arte não há nada mais velho do que o futurismo”.
“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”.
“O ar não é silencioso? O vento não faz barulho? E que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento”.
"Tem gente que é só passar pela gente que a gente fica contente. Tem gente que sente o que a gente sente e passa isto docemente. Tem gente que vive como a gente vive, tem gente que fala e nos olha na face, tem gente que cala e nos faz olhar. Toda essa gente que convive com a gente, leva da gente o que a gente teme passa a ser gente dentro da gente. Um pedaço da gente em outro alguém."
“São vidas. Sendo vidas, nada mais nos resta fazer senão irmos vivendo”.
“Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando, sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação, recriando em si mesmo a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência”.
“A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, som serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo”.
“Só é sincero aquilo que não se diz”.
“Mas a convivência é feita também de silêncio, e distância”.
“O importante não é dizer, é saber. Certas coisas não se dizem, porque dizendo, deixam de ser ditas pelo não-dizer, que diz muito mais”.
“A consciência é inútil, sem uma convicção adquirida.”
“Há pessoas que têm o dom de inspirar-me uma fulminante simpatia à primeira vista - quase sempre aliás, injustificada”.
“Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguem”.
“Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino”.
“Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
O autor faleceu dia 11 de outubro de 2004 na cidade do Rio de Janeiro.
A seu pedido, seu epitáfio foi esculpido na lápide:
"Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino".
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
Curiango
João-sem-braço, gritam os moleques na rua.
Ele baixa a
cabeça – envergonhado -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas
ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o
braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.
A certidão
atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia,
quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a
saber que sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até
fincar estaca em Valadares.O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio.
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela.
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.
Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele
não teve.
Namorada,
não conseguiu. Ele não havia nascido para o amor.
Era tão
feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada
finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com
fita branca.
Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12
horas por dia ele moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os
caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma
cidade. Um país.Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.
Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem - por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
- Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
Sozinho, não: com o “companheiro”.
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
- Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser
umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a
saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.
Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.
Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o
maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na
esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria.
Diabolicamente, como é de seu feitio.
* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório
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sexta-feira, 20 de abril de 2012
O Presente Maior
(Para os meninos Hique, Pepê e Dedé)
O que dar de presente a um menino no dia de seu aniversário?
Das minhas recordações da infância salta uma bola de futebol, presente de uma tia de Belo Horizonte.
Cresci achando ter ganhado menos presentes do que mereci.
Adulto, entendi que recebi muito mais do que puderam me dar.
O que dar a um filho, menino, no dia de seu aniversário?
Um futuro brilhante?
Um lugar garantido em Princeton, quando ele crescer?
Um poema?
Uma canção?
O gol da vitória numa final de campeonato na escola?
Um dez em matemática?
Um pai e uma mãe honestos e de bom coração?
Estes últimos são, a meu ver, um presente imprescindível.
Tudo o mais, vem junto, a reboque, dentro dos limites de cada um.
Eu, se pudesse, daria uma professora carinhosa e meiga, quase uma extensão da avó.
E um carrinho de madeira, com capô de lata e rodas recortadas de uma velha sandália havaiana.
Um pião, uma pipa e um carrinho de rolimã.
Um embornal com um estilingue e muitas bolinhas de gude.
E frutas maduras, cheirosas, suculentas, tiradas diretamente do pé.
Daria ainda manhãs de grama orvalhada.
Uma estrela que nunca se apaga.
E uma fogueira de São João.
Daria férias inesquecíveis na fazenda.
E um piau prateado, daqueles que dançam no extremo da linha que pende da ponta da vara de pescar.
Daria ainda um passeio no lombo de um cavalo troteiro.
E a visão confortante, ao longe, de uma chaminé fumegando na paisagem.
Construiria uma estrada margeada por flores silvestres, margaridas, cravos, lírios e jasmins.
Daria um conselho de avô.
Um biscoito da avó.
Um mergulho no riacho.
Uma ducha na cachoeira.
Uma lua cheia.
Noites sem pesadelos, sem bruxas malvadas ou dragões cuspindo fogo.
Chuvas?
Só se fossem as de verão, cantando “sol e chuva, casamento de viúva”.
E o ar com cheiro da terra molhada e um arco-íris, com seu pote de ouro, bem no fim.
Daria-lhe ainda uma festa de aniversário coalhada de balões coloridos num dia ensolarado, bem no começo da primavera.
E um bolo de chocolate com uma vela numeral em cima, e um coral de amiguinhos do peito, puxando um desafinado mas, entusiasmado, ‘parabéns’.
Mas os tempos mudaram, eu sei.
E hoje só se fala em videogames, bicicletas cibernéticas, rollerblades, Ipods, celulares, roupas de grife, viagens a Disney e bonecos de super-heróis, daqueles que lançam raios laser de seus olhos.
Não existe nada de errado nisto.
Mudaram os tempos e as prendas que damos aos meninos.
O que não podemos mudar é aquilo que acredito ser o presente maior.
No meu relicário, que é onde guardo as coisas de maior valor, estão o respeito e a admiração por um cara que sempre me deu muito mais do que pôde dar:
O amor pelo filho, esse sim, é um presente que dura para sempre. Herdei do meu como lição.
O resto, todo o resto, também é importante.
Mas é coisa menor.
Bem menor.
Grande é a infância.
Ilustração, "Infância", quadro de Marina Jardim.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Das coisas simples da vida
Algum dos leitores combinou - em priscas eras - “Capadinho à Meia” com algum amiguinho ou amiguinha na escola?
Tudo bem.
Não vou forçar a barra.
Só quem é do interior e já “trintou“ nesta vida, irá saber do que estou falando.
Capadinho à Meia visava copiar, à moda dos meninos, o tratado que os adultos tinham de criar porcos à meia.
Na versão adulta, funcionava assim:
A porca do senhor José paria seus leitões e esses leitões eram levados para a casa do senhor João.
Este, por sua vez, “capava” os suínos para que tivessem uma engorda mais rápida. Cabia a ele criá-los.
Era sua total responsabilidade alimentá-los, curá-los de eventuais doenças até que alcançassem o peso ideal. Uma vez “no ponto”, os animais eram vendidos ou abatidos.
No primeiro caso, cada um levava a metade do dinheiro obtido.
No segundo caso, cada sócio ficava com uma banda do bicho.
Entre as crianças, o contrato referia-se ao lanche do recreio na escola.
O “compadre” que escutasse o seu par dizer “Capadinho à Meia”, deveria, imediatamente e sem reclamar, repartir ao meio, a merenda.
Esquisito, né?
Nem tanto.
Estranho mesmo era, no início da juventude, a carteirinha de sapo, uma cartolina impressa em tipografia, contendo os seguintes dizeres:
“O portador deste documento tem direito de roubar fruta no pé, dar palpite em jogo de sinuca, omitir durante a confissão, filar cigarro dos amigos e xingar juiz em partida de futebol”.E os apelidos do interior?
Impagáveis, todos eles.
Melhor mesmo, só alguns nomes.
O humorista Chico Anysio, por exemplo, jurava que o meio campo do seu time de coração, o Ferroviário do Ceará, era composto por Redondo, Peru e Cacetão.No Ibituruna de São Raimundo tínhamos Fubica, Piriá, Pilão, Caieira e o treinador Pé-Chato, todos apelidos.
Tinha também Atanagiba, Aristeu e Docival, do jeitinho que atestavam suas respectivas certidões de nascimento.
Nos botequins do bairro, duplas engraçadas como Almir Boca-Rosa e Walmir Tanguinha, parceiros de sinuca.
No salão de dança tinha Jandira Tanajura e Maria Cobrinha, especialistas em forró.
Registre-se na lista os amedrontadores Pedrinho Capeta, Cláudio Saci e Antônio “Lubizôme’.
Não posso me esquecer dos “insetos” Formigão e Muriçoca. Nem dos “pacíficos” Marcos Pombinha e Antenor Calça-Frouxa.
Tinha também os pouco atraentes Antõin Curiango e Reginaldo Caburé.
Na zona boêmia, Rita Cafubira e Adelaide Copo-Sujo.
A namorada de meu amigo Paulo Canjiquinha atendia pela alcunha de Beth Arrebenta-Beiço.
Tudo porque abrira com um golpe de cotovelo, a boca de um bêbado que tentou agarrá-la na saída de um baile no clube San Remo.
Meu padrinho se chamava Deobaldino.
Sua esposa era Sidonília.
No meio de tanta espirituosidade, nenhum caso é tão pitoresco como o dos inapartáveis José e Sebastião.
José de Arimatéia Santos era negro, tão reluzente, que caiu nas graças do povo como Zé Cromado.
Seu grande amigo Sebastião Soares Pollozi, era o único albino dos sete irmãos.
Na infância era chamado de ‘Vermêio’ e Cabelo-de-Fogo. Na juventude, ganhou o definitivo Tião ‘Fuliado’.
Eles queriam dizer que ele era “folheado a ouro”.
É bom deixar claro que Zé Cromado e Tião ‘Fuliado’, eram “atrelados” desde meninos, mas tinham lá suas diferenças.
Um era atleticano, o outro cruzeirense.
Um era MDB, o outro ARENA.
Um era seresteiro.
O outro só falava em samba.
Ambos trabalhavam na cerâmica e eram compadres no batismo de seus filhos.
Cromado e Fuliado devem andar por lá até hoje.
Trocando farpas durante o carteado ou pescando no rio, discordando no futebol e na política, mas inseparáveis como dois siameses gerados fora da genética, através desta maravilha não-científica chamada amizade.
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